ENTREVISTA
Paulinho do Transporte

Paulo João Estausia (Paulinho do Transporte), presidente do Sindicato, conta como a categoria, com união, mobilização e estratégias inteligentes, conseguiu destacar Sorocaba nacional e internacionalmente como exemplo de lutas e conquistas
“A greve é a principal arma que nós temos, mas é a última que se usa. Antes disso é o diálogo. E uma estratégia de negociação para poder evoluir.”
Como presidente de um sindicato do interior do Brasil, Paulo João Estausia, o Paulinho do Transporte, conquistou um destaque admirável nos planos nacional e internacional. A experiência de quem cresceu num lar politizado, iniciou a carreira profissional na construção de Itaipu e conheceu a fundo o cotidiano do trabalho, ganhando a vida como operador de máquina e motorista de ônibus, associada à liderança natural que contribuiu para unir a categoria e fazer dos salários dos motoristas de ônibus urbanos de Sorocaba os maiores do Brasil, o catapultaram para cargos de destaque em entidades nacionais e internacionais relacionadas aos transportes.
Além de presidir o Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários de Sorocaba e Região desde 1999 – portanto, há 25 anos –, Paulinho é presidente, já no terceiro mandato, da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transporte e Logística (CNTTL), entidade que representa todos os modais de transporte — inclusive o aeroviário. É vice-presidente mundial da Seção de Transportes Rodoviários da Federação Internacional dos Trabalhadores nos Transportes (International Transport Workers’ Federation – ITF), que congrega mais de 160 países, e vice-presidente da Federação Unitária do Transporte, Portos, Pesca e Comunicação de América Latina e Caribe (Futac).
Nesta entrevista, o líder sindical nascido em Campina da Lagoa (Estado do Paraná), em 21 de fevereiro de 1963, lembra um pouco de sua trajetória de vida, conta como o Sindicato manteve a categoria unida por décadas para reivindicar melhorias, lutar contra retrocessos no campo trabalhista e defender o Estado de Direito, e opina sobre o livro de Carlos Araújo, Linha de Frente – A épica história dos trabalhadores dos transportes de Sorocaba e Região: fortes e preparados, que avalia como um legado para as próximas gerações, não só da categoria que representa, mas de todos os setores do mundo do trabalho e do movimento sindical.
Paulinho, você é uma pessoa extremamente politizada. Sempre foi assim? De onde vem essa consciência política?
Isso é herança do meu pai. Ele era sindicalista da área rural, no Paraná. Ele representava os pequenos e médios produtores. E, no período da ditadura, meu pai protegia na nossa propriedade os perseguidos pelo regime. Ele os escondia em ranchos que ficavam lá no meio das plantações e, à noite, levava comida para eles. Dali, posteriormente, eles normalmente iam para o Paraguai, iam para a Argentina, era uma forma de atravessar a divisa. Nós, eu e meus irmãos, éramos crianças e meu pai não nos contava nada. O Exército, a Polícia vinham em seus jeeps e nos abordavam (éramos dez irmãos, mais dois adotivos), para perguntar se tinha gente estranha morando com a gente, mas nós não sabíamos. Só mais tarde, quando acabou o regime militar, em 1985, meu pai começou a nos contar tudo o que acontecia.
E sua fase adulta coincide com um momento de abertura política, a Constituição de 1988, quando estava havendo uma retomada do movimento sindical.
Sim. Foi quando houve aquela explosão do movimento sindical, particularmente na região do ABC, aqui no Estado de São Paulo. E o Lula se destacou muito nesse período. Nessa altura, eu particularmente já tinha ideologicamente o entendimento que o meu pai sempre foi de esquerda. O grande avanço do movimento sindical começou com as mobilizações. Os principais “sindicatos de carimbo”, que é como a gente chamava a geração Getúlio Vargas – sindicatos que não serviam para mobilizar, pra fazer lutas de fato, eram só para carimbar papel –, nesse período, começaram a evoluir. Em muitos sindicados, os trabalhadores acabaram se organizando e disputando eleições, criando um modelo de sindicalismo independente de luta, com conquistas para os trabalhadores. Acordos coletivos, convenções coletivas começaram a surgir, já bem diferenciados do que era antigamente. Isso foi uma evolução fantástica e nós já estávamos nesse processo, eu já estava nesse processo junto com meus companheiros, e até hoje nós caminhamos juntos.
Pra você, foi um caminho natural?
Para mim foi muito tranquilo. Eu já tinha aquela noção de que tinha que melhorar para todo mundo para ficar bom para mim. E, para melhorar pra todo mundo, precisávamos de instrumentos de luta, de transformação da sociedade. E quais eram os instrumentos? Os instrumentos eram a instituição sindical, o partido político. Por isso eu estou filiado no Partido dos Trabalhadores desde 1992. Se você quer mudar a sociedade, tem que ter onde militar. Pode ser uma associação de amigos de bairro, uma sindicato, qualquer agremiação. E para mim surgiu o sindicato. Fui convidado a participar da militância sindical porque, naquela época, nas empresas em que eu trabalhava, eu aglutinava grupos de trabalhadores para debater politicamente as coisas. Debater política, questões sociais. Tudo isso era importante. Tudo isso eu gostava de debater muito com os trabalhadores. Aí, acabei me destacando. Estou aqui já há 32 anos.
Você exerceu quais funções no sindicato?
Quando eu vim para a diretoria do sindicato, em 1992, eu era o último suplente da diretoria. Já no segundo mandato fui para a vice-presidência. E depois fiquei por mais um mandato, pelo menos, em outra função, Ate que em 1999 assumi a presidência.
Nesses 32 anos houve muita mudança, né? A gente viu no livro. Era difícil no começo, não havia uma mediação igualitária. O poder público chamava a Polícia, botava a Polícia em cima dos trabalhadores. Como que você sente essas conquistas? Como foi essa transição?
A gente já sabia que não ia ser fácil. Todo mundo tinha noção de que não seria fácil fazer uma luta, porque nós tínhamos acabado de sair de um regime militar, do tempo da ditadura, então a repressão do Estado era, vamos dizer assim, já era padrão. Tudo que se fazia, vinha repressão do Estado. Qualquer órgão da Segurança Pública tratava qualquer movimento social ou sindical na forma da repressão, mesmo considerando a legalidade – depois da Constituição de 88 regularizou muito a questão do direito de greve, tudo isso – , mas, mesmo assim, ainda tinha aquela herança. Isso foi melhorando, claro, mas nós sabíamos que ia ser muito difícil. Então, como nós sabíamos disso, nós já nos preparávamos pra isso. Quando íamos para um enfrentamento de greve, sabíamos as dificuldades, porque primeiro o patrão vinha tentar desmobilizar, e depois vinham os órgãos da segurança pública, seja qual for. Por determinação dos seus superiores, vinham para fazer a repressão. Então nós sabíamos que não era fácil. Mas fizemos a resistência, usamos os meios mais estratégicos possíveis para evitar confronto com a repressão do Estado, e isso teve êxito.
Em que momento e como isso começou a mudar?
Começamos a criar os movimentos inteligentes, que é o que nós praticamos até hoje. Não tem por que ter confronto com a Segurança Pública. Todos eles, no nosso entendimento, também são alvo de exploração econômica, ou seja, também são trabalhadores e trabalhadoras, e muitos não têm essa compreensão, mas a gente tem. Então nós entendíamos que eles também poderiam estar sendo manipulados, e estavam. Boa parte está até hoje, mas já melhorou muito. Então a gente achou uma estratégia de como fazer greves ou mobilizações inteligentes. Aí começamos a criar mecanismos para não ter enfrentamento. Isso tudo foi virando a chave. A gente vê hoje, por exemplo (17 de maio): viemos de uma negociação difícil. Mas foi negociação que foi travada, acho que pode-se dizer, em bons termos. ontem à noite, nós ficamos aqui [no sindicato] até a tarde da noite, conseguimos chegar no entendimento de que a proposta era ideal. Tem que ter essa maturidade também, né? De não utilizar a força do trabalhador quando desnecessário. A mobilização quando desnecessária. A greve é a principal arma que nós temos, mas é a última que se usa. Antes disso é o diálogo. E uma estratégia de negociação para poder evoluir. E foi o que aconteceu em Sorocaba. Conseguimos chegar no maior piso salarial, os melhores benefícios de todas as capitais brasileiras, ou seja, de todo o Brasil. Foi um processo demorado.
Existe uma fórmula para manter esse legado?
Veja, a forma de mobilizar a categoria, do jeito que nós sempre mobilizamos, é o mesmo formato que nós utilizamos na diretoria do sindicato. A categoria passa por um processo de renovação natural. A rotatividade vai acontecendo, mas quando nós temos algumas lutas antigas, históricas, e parte desses trabalhadores antigos participaram, em algum momento, da estratégia do movimento. Nós definimos qual era a estratégia, eles confiaram e deu certo. Eles também se integraram nesse entendimento, ou seja, criaram um legado que vai passando para as próximas gerações. Assim é a nossa diretoria. Nós estamos aqui há quase 40 anos, como é contado o tempo do França (Francisco França da Silva, vice-presidente do sindicato e vereador desde 2005), que é o mais antigo aqui. Eu estou há 32 anos nesse sindicato. Nós renovamos a diretoria todo mandato, no mínimo, 50%. Mas tem um pessoal originário, minoritário, mas originário, e o legado não se perde. A gente mantém aquela tradição. A categoria é a mesma coisa. A categoria tem os trabalhadores, trabalhadoras mais antigos, que participaram de movimentos difíceis, de movimentos difíceis. E eles falam para os mais novos: siga o que o sindicato encaminhar como estratégia, como planejamento, que tudo dá certo. Porque no passado aconteceu assim e deu certo. Então, com isso, a categoria vai aderindo, vai vendo o resultado, com enfrentamento ou não. Ou apenas a negociação dá certo, e aí isso vai ganhando confiança, vai gerando uma tradição de conduzir um legado antigo que não deixamos acabar. Aquele formato de mobilização é um elo de confiança. A categoria tem que confiar nos seus representantes. É o que nós mais pregamos. E os representantes têm que provar que o voto de confiança deu resultado positivo. E sempre dá.
Como você avalia, fazendo parte desse movimento, a publicação do livro Linha de Frente, que conta justamente a história de lutas dos trabalhadores dos transportes?
A história de nossa categoria renderia vários volumes, mas esse livro consegue sintetizar os principais momentos dessa luta de várias gerações. Eu quero agradecer o privilégio de poder contar com essa obra que conta parte da nossa história. Isso é importante. Espero que o livro, como registro histórico, sirva para muitas outras gerações que virão, não só neste sindicato, mas em outros setores dos movimentos sindical e sociais, que possam também ter em Linha de Frente um exemplo de união e mobilização que deu certo, e que pode dar certo em outros setores também.
Entrevista concedida em 17 de maio de 2024.





