TRECHO
A luta faz a lei

Capítulo 1
Transportando o Brasil
A história da humanidade pode ser contada pelas formas com que as criaturas se movimentam de um lugar para outro. Desde os mais remotos tempos, os transportes de passageiros e de cargas utilizaram carregadores, cavalos, mulas, bois, entre tantas outras alternativas. A evolução do conhecimento introduziu os novos meios como o trem, o automóvel, os navios, os ônibus, os caminhões, os metrôs, os aviões, os foguetes e até mesmo as naves espaciais. As mudanças se sucederam conforme surgiram as necessidades e ajudaram a melhorar as condições de vida em todo o mundo. A existência ganhou novos significados, novas possibilidades, novos horizontes. Nesse contexto, todo o passado é história acumulada que impulsiona o presente e abre portas para um futuro de grandes desafios.
Toda essa maravilha criada pela inteligência humana, no entanto, não é nada se não tiver a força propulsora do trabalhador que faz o trem avançar pelos trilhos, que conduz o navio pelos oceanos e que dirige o ônibus pelas ruas das grandes cidades. O maquinista do trem, o capitão do navio e o motorista do ônibus, assim como todos os outros profissionais que operam os demais meios de transportes, desempenham papel de protagonistas nessa história vibrante que é a base de todos os pilares de progresso e desenvolvimento.
E nessa engrenagem de convivência humana, as criaturas se agrupam em classes sociais específicas. De um lado estão os patrões, donos do capital e das empresas, e de outro os trabalhadores, responsáveis pela força de trabalho que move e impulsiona os meios de produção, a economia, o desenvolvimento do país. Os dois lados associam-se em entidades de classes representadas por sindicatos patronais e de trabalhadores. Defendem interesses distintos: enquanto os patrões querem garantir os lucros do capital investido, os empregados lutam por salários e condições de trabalho que lhes garantam a qualidade de vida e o sustento de suas famílias.
A história mostra que esses objetivos não são conciliáveis. Quando há divergências, os embates habitualmente são difíceis. Cada um luta com as armas que tem. De um lado, se os patrões podem efetuar demissões, os empregados têm a opção de reagir com greves que ameaçam e comprometem os lucros do capital. Muitas vezes as negociações se radicalizam e as partes em conflito assumem configurações de exércitos em campos de batalha. Se de um lado os patrões representam o capital; os trabalhadores, para fazer frente ao combate e se erguer à altura dos desafios, organizam-se como se fossem tropas de irmãos. Assim é que os trabalhadores, unidos, fortes e preparados para as provas mais difíceis, movem-se e dão exemplos de coragem na mesma proporção da importância que exercem em toda a história do Brasil e do mundo.
A greve de 25 dias dos trabalhadores dos transportes de Sorocaba, em junho e julho de 2017, que entrou para a história como a maior greve dos transportes no Brasil, converteu-se em exemplo da capacidade de luta dos trabalhadores em defesa dos seus direitos. No setor de cargas, a greve dos caminhoneiros de maio de 2018 também marcou história como comprovação da força da classe trabalhadora.
Desde as greves do ABC paulista, dos metalúrgicos liderados pelo companheiro Luiz Inácio Lula da Silva, até os dias de hoje, são muitos os exemplos de que a luta dos trabalhadores faz a lei num país em que o capital ainda tenta explorar a força de trabalho nos mesmos moldes do Brasil Colônia. Os trabalhadores dizem “não” na maioria das vezes em que isso acontece. Cruzam os braços, pressionam, ignoram as ameaças e o medo. Revestem-se de coragem, vão para as ruas, protestam. Compreendem que “quem sabe faz a hora/ não espera acontecer”, como diz a célebre canção de Geraldo Vandré.
E é com esse espírito de mobilização e energia vibrante que os trabalhadores dos transportes de Sorocaba e Região, também chamados de rodoviários, construíram um impressionante legado que vai ficar para a história.
Ao mesmo tempo em que transportam passageiros e cargas, os rodoviários dão importante contribuição para impulsionar a economia. Conduzindo trabalhadores de outras categorias profissionais, estudantes, donas de casa, crianças e idosos, e eles passam a fazer parte das vidas das pessoas. Muitos passageiros fazem esse reconhecimento e dessas relações sociais surgem grandes amizades para a vida inteira. Os transportes ocupam o mesmo grau de importância nas vidas dos brasileiros como outras prioridades, tais como segurança, moradia, educação, saúde e emprego. A dimensão dessa importância é sentida em ocasiões de aumentos das tarifas de ônibus, que complicam os ganhos e interferem nos cálculos de inflação, ou em greves que comprometem o ritmo de todas as demais atividades. Em junho de 2013, no Brasil, um aumento de R$ 0,20 na tarifa de ônibus deflagrou protestos com grandes multidões nas ruas. Em maio de 2018, uma greve de caminhoneiros desafiou o governo e paralisou o país.
Por todo esse arcabouço de significados, em meio aos conjuntos de avanços e desafios da profissão, os rodoviários vivem e acumulam muitas histórias, individuais e coletivas, que servem de exemplos de consciência de classe para as atuais e futuras gerações de trabalhadores brasileiros. Muitas dessas histórias são contadas neste livro. As narrativas servem de inspiração para os rodoviários e os trabalhadores de outras categorias de todo o Brasil. Mostram o exemplo épico de como grupos de homens e mulheres, tanto nascidos em Sorocaba e Região como vindos de outras regiões do Brasil, podem se tornar companheiros de classe profissional e se unir com a força de uma tropa de irmãos, fortes e preparados, no instante em que forem convocados para novas jornadas na linha de frente das grandes batalhas por melhores condições de vida e de trabalho.





